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Democrático

a Jorge Luis Borges

Estou cansado destes abutres em festa
Em torno do meu rosto calado, inda cego
Desde o dia em que furtei os olhos sob a testa,
Lançando-os contra o chão, qual martelo a um prego.

Dói-me sentir o ar quente que aflige e infesta
Os ermos sulcos que eram vida e luz. Não nego!
Sepulcrei os tolos mitos da visão funesta
Nas urnas do silêncio apoplético do ego.

Queria respirar a paz da escuridão
E tatear a esmo a pálida loucura...
Em vão! Sucumbi à outra penosa tortura:

Abutres balbuciam palavras que são
Qual pesadas marretas esmagando ouvidos;
Degolo o cego corpo... abrando tais ruídos!

Nota do autor: Inspirado nos versos de Jorge Luis Borges:

"Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para poder pensar;
o tempo foi meu Demócrito."

28 de Junho de 2009 às 04:07:01 -0400. Hits: 245

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