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Quando o último féretro deixa seus rastos
Sobre o manto de túmulos calmos e castos,
Um véu de vis prazeres cobre os muitos mortos
Que ancoram, sonolentos, em sublimes portos.
A rebeldia invade suas cavidades
Insuflando vigor e musicalidades
No sangue ressequido, nos ossos roídos,
Levantando os escombros em graves gemidos.
As lápides quebradas revelam seus rostos
Marcados pela angústia e pungentes desgostos,
Polvilhados com terra, que vibra e germina
E dança! Os corpos tensos bailam na ruína.
Inda presos aos trapos da monotonia
Os esguios molambos caem na alegria
Festejando e saudando o tosco carnaval
Com brindes em cãs taças ósseas de cristal.
Desejos maculados pela mãe dos loucos
Reflorescem nos peitos podres, e em sons roucos
Prenunciam a última hora de festejos.
Orgias sepulcrais incendeiam-se aos beijos.
A lascívia percorre os labirintos vagos
Da festiva necrópole e os ébrios afagos
Turvam a vítrea aragem que se torna opaca
Aos olhos tenros, vívidos, da turba laica.
Os corpos decadentes, a cada atro passo,
Deixam pender fragmentos outonais, qual maço
De ingratas folhas secas, e a cada outra dança,
Farrapos e esqueletos findam a esperança.
Derradeiros clamores de contentamento
Trancam-se em suas tumbas com um sombrio alento,
Enquanto um novo féretro deixa seus rastos
Sobre o manto de túmulos calmos e castos.
© 2008-2012 Abílio Mateus Jr. — todos os direitos reservados
28 de Junho de 2009 às 15:23:42 -0400. Hits: 234
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