poemas avulsos ofertas da casa idéias ao vento dejetos ao esgoto lixo aos nossos olhos desterros da alma asas de mariposa lágrimas de virgens sorrisos decadentes poemas entre sombras palavras aos montes de estrume e fel doenças radiantes felicidades esparsas cruzes num campo ossos na areia resquícios de gente restos de artilharia cadáveres de sombras poemas dispersos gritos de prazer orgias artísticas cenas de novela em novelos desfiados sono acordado sonho cabeças desfeitas gravatas e cordas lábios e foices lúcidas imagens poemas avulsos
Sonhando e divagando sempre me deparo
Com a figura lânguida de um cão faminto
Que por vezes encontro, feito um anteparo,
Inerte, sustentando seu corpo indistinto.
As patas alquebradas, tremendo até os dentes
Numa tortura vaga e mais silenciosa
Que a dor reinante em suas pupilas tementes:
Medo da morte, humana, usando terno e prosa.
Os dois olhos confusos, perdidos na esquina
Do insano desespero, entre a glória e a paz.
Um contido murmúrio de fome que mina
Do ventre oco e silente, qual resto que jaz.
Ainda me recordo desse animal, fruto
Da comunhão da vida com o negro alento;
Sua imagem persegue meu ser diminuto
Em cada passo raso no solo cinzento.
A leveza do seu caminhar, seu "sorriso",
Levam minha alma à turva desconfiança
Que logo se revela num trágico aviso.
Céus! O que vejo é uma santa criança!
Jogada no tumulto da cidade ingrata,
Fica imóvel diante da minha surpresa,
Sorrindo, disfarçando a fome que lhe mata,
Num silêncio voraz, tristemente indefesa.
© 2008-2012 Abílio Mateus Jr. — todos os direitos reservados
28 de Junho de 2009 às 03:37:09 -0400. Hits: 295
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